quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Mina certa



Uma pérola cintila
quase como a aurora
da alma que andou milhas
Mas, chegou na hora

De certo que anuncia o broto
De um sonho torto
Que sonha ouvir teus encantos
E delira-me em acalanto

Então, acordo na hora certa
E com o vento chego em ti
Descobrindo a razão do ser aqui

Encontrei a mina aberta
E por fim garimpei a minha dívida
De ser feliz nessa vida

Capa de frio

Um velho me disse
Se descubra

O vento me disse
você sentirá frio

O frio me disse cadê o cobertor?
Eu disse
Me descobri.

Tropeço

Se tropeço em teu pé
É como uma folha que cai no chão
Na maca, é preciso mais do que um pé
Para deitar o coração...

Passagem

Ora, as horas estão passando...
Mas, ora sem esperança
Vão continuar passando
Ora, não vê que já fosse criança
Puro como o relógio
Mas, não aceites o elogio
Do tempo... Passa tempo sem demora
De mão com as horas...
Tíquetaqueando para o tempo:
Não pára
Tempo
Não pára...

(Brincou?
Não parou...)

E vai continuar a passar
Sem que dê tempo de contar
Conta, contas...
Perdeu a conta?
Não paga...
Ela já se apaga
Junto contigo
De volta ao umbigo
Do início ao sim
Na barriga do fim

Na mãe Terra
Debaixo da terra...

(Como o tempo
como o vento...)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

... Tem alguém aí?
A resposta para isso é estar
(Se não está não responde)

Tem alguém aqui?
Não pergunto nem respondo
Não há...

No oco de minha voz
Desbravo o óbvio
Descubro-me em versos
Que são poesia
E dizem nada
Para nada
Para ninguém

...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Escreve!

O andar cambaleante do talvez
É de quem nunca fez
Não houve ainda neste planeta
Texto sem escrever uma letra

(Escreve!)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Expirar

Em minha ilusão diária
Faltam-me os dias
E meus sonhos escorrem pelos olhos
Não sei a fonte
Se de dentro para fora
Ou de fora para dentro
Sou confuso de coração

Meu coração tem milhões de olhos
E não olho por nenhum
Senão todos
Talvez cegos
Por minha visão

Vejo apenas sangue
Não bombeio luz
Talvez nada

Nada a ver ou bombear
Apenas ar

Expirar...

sábado, 24 de setembro de 2011

Epitáfio mórbido

Dizes: "se acabou o amor
É porque ele nunca foi meu"
Dirão em teu epitáfio sem flor
"Nunca viveu..."

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Horas chão

Em prantos o céu chora
Desaba qual mar de chuva
Forma gotas em cachos de uva
Que a Terra pega como uma luva

Embaixo o cristão ao céu uiva
Pede que nuvens fiquem turvas
E desacelere o rio como curvas
Curvando-se de joelhos ele ora

Lágrimas sobem
Gotas chovem
E tudo desagua
Na mesma água
Do mundo
Mudo
De tudo

Quem chora, não olha
Mas também se molha...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Versos passados

Antes eu fosse escravo do ser
[Ou mesmo do dinheiro]
Do que este eterno não ser
Margem que não beiro
Só vejo...

Antes eu falasse como passarinhos no ar
Em sinfonia constante
Do que este eterno não ter o que falar
Não vale a pena que se cante
Só ouço...

Antes eu roubasse aquela amada
Mesmo sem vontade, nem idade
Apenas para deixá-la na estrada
Mas eu fui covarde
Nem sonho...

Antes fosse refém de linhas
Com caneta perseguindo rimas
Mesmo onde a vida definha
E não tem nada que a a afirma
Nem futuro...

Antes só
Do que com meus versos...

Antes eu não escrevesse esta poesia!

Poesia

Como escrever poesia?
Fere as linhas imaginárias do corpo
Com a faca que cria
E deixa escorrer os versos no copo

(Não precisa beber,
Apenas escrever)

Segue o rio em seu curso
Até perder o pulso

Caminho de vai e volta
Que de tanto tráfico, corta

-Corta!

domingo, 18 de setembro de 2011

Duvidam que tu conseguirá?
Ora, não te irrites...
Se duvidam das estrelas que existem
Há melhor resposta do que brilhar?

Resposta brilhante

Duvidam que tu conseguirá?
Ora, não te irrites...
Se duvidam das estrelas que existem
Há resposta melhor do que brilhar?

sábado, 17 de setembro de 2011

Reflexo sinuoso do sol
Como silhuetas de uma árvore
A produzir espelhos para não ficar só
Na floresta secreta de odores
Flores e beija-flores

Na cidade, como o beija-flor
Sonhas teu beijo de amor

Ora, não chore
Na rua está teus amores
A gastar os passos na rua
Rua que verá aonde fores
E o reflexo na lua

Melhores,
Velhos amigos
São amigos espelhos
Amores e flores

(Para cheirar, ver e refletir...)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Poema curto

Este é um poema curto
Do tamanho de um susto

Assusta-me
Encurta-me
Num surto
Louco de um poema curto

Sentimento do tamanho da linha que vai...

Medo constumeiro

Como de costume
Pego no pincel e no quadro
À procura de consolo para meu fado
Como de costume

Tenho medo
Como é rotineiro aqui
Medo de repetir
Que tenho medo de repetir
Medo que tenho
Medo

Do costume da rotina
Pego o poema sem lápis
Lendo o medo do que já fiz
Medo do que escrevi acima

Começo uma nova estrofe
Como um lápis que sofre

Sob o costume da rotina
Rotina presente aqui e ali
como de costume
Tenho medo dos costumes

Ilusão atômica

Os átomos reais como eu
São sonhos que nunca bi
Movendo por territórios do invisível
Estão dançando sempre por aqui

Tão pequenos
Que não cabem em meus olhos
Nanométricos mais ou menos
Pequenos como átomos dos olhos

Estão fora da minha paisagem
Como imagens sagradas
Soam como miragem

Uma miragem que fica pairada
Os átomos à nossa margem
Como um andar sem escada

(Ou será varinha sem fada...?)

Relógio estridente

As horas passam com tudo
Tudo que se pratique
Tudo que se ataque
Contudo o fato não nos deixa mudo

A arte que traz o tempo
Não faz o tempo voltar para trás
Mas, mesmo que o relógio destaque o tempo
É arte que ataca seu capataz
A velhice que irrita
Que com o cansaço bate
Com olhos de uma águia que fita
Quieta e intensamente como um elástico

Forte como a alegria da juventude
Fraco como os versos de poesia
Corta a tristeza do que não pude
Aquecendo as horas com o que não se via

Não há papel que não se risque
Como todo relógio faz tic
Não há pedra que não se lasque
E o relógio faz tac...

Como tiques do tempo
Ou como uma estaca no espaço
tic...
tac...

T

Tudo depende da hora!
Esta poesia depende de Drumond
Palavras que ganham força afora
Quando vibram como som

Eu dependo de você
Que disse que Drumond disse
Que tudo depende da hora
[para ser]
Até para chegar à calvice

Eu, você e Drumond dependemos
Pendemos como um pêndulo
Pendurado nas horas que perdemos
Um relógio fulo

Dependemos da hora
Como eu pêndulo em você
As horas dependem de tudo
Como eu dependo de você

(Ele se perdeu
Eu te perdi
Você se perdeu por aí
Nós nos perdemos onde ninguém leu)

domingo, 11 de setembro de 2011

As aparências não enganam
As pessoas é que se iludem
Vêem alucinação...

Afinal onde está a aparência?

Camuflado

Nativo do mundo
Das cores e da forma
Prendo-me ao redor como um fundo
Suspenso em vento que não retorna
Tudo em suspense...

Não precisas ver
Apenas pense

Encorpado em timidez
de existir num corpo
que carece de robustez
E transparece como um copo
que não dá para beber

Quem se esconde vence...
Basta ser

Ser como o meio
Sem início nem fim
Entre o acelerador e o freio
Ninguém precisa saber de mim
A imagem ilude...

Apenas imagine-se
Camuflado nas próprias rimas
Como um pensamento que ninguém visse
Afiado por uma lima
Até que a ilusão desgrude...